Sala de Aula de Educação Física do Futuro


DESAFIO


Ao longo da minha carreira como professor de EF (26 anos de prática pedagógica), por mais que tente criar um ambiente favorável ao envolvimento e clima positivo, não consigo que todos os alunos se envolvam e tenham o melhor sucesso. Apesar do meu esforço, criatividade e inovação, encontro sempre resistências, dificuldades e vejo-me envolvido em conflitos com alguns alunos. Encontro sempre contrariedades, muitas delas profundamente desagradáveis, e alunos insatisfeitos e mesmo revoltados.

% clientes por categoria

Na literatura do fitness relativamente ao tópico da retenção dos clientes, existem 3 categorias (Tipologia de clientes adaptado à realidade da disciplina de Educação Física):

SWALLOWS (Andorinha):

andorinha20% dos clientes continua a vir ao Ginásio e não necessita de atenção particular: estes são os clientes leais. Chamamos-lhes “swallows” uma vez que regressam fielmente todos os anos. | No caso da Ed. Física 20% dos alunos são leais, gostam intrinsecamente do exercício físico independentemente da forma e do conteúdo.

HAWKS (Falcão):

falcão20% dos clientes desistem de qualquer forma não importa o que se lhes possa oferecer. Uma desistência fisiológica e chamamos-lhe de “Hawks” uma vez que mudam sempre de ninho. | Na EF, como não podem mudar de ninho (escolaridade obrigatória por lei), assumem 2 tipos de atitude: Ou desistem (Faltas de material; dispensas às aulas; faltas de presença; recusa em participar), ou tornam-se problemáticos porque se sentem contrariados e insatisfeitos (passividade-agressiva). Ou seja, estacionam no quadrante 3 e 4. Muitos destes alunos são muito seletivos nas atividades que gostam rejeitando aquelas nas quais não dominam ou não gostam (baixa tolerância à frustração e insucesso).

SPARROWS (Pardal):

pardal60% dos clientes precisam de mais ações para se ganhar a sua lealdade e melhorar o seu nível de satisfação; chamamos-lhes “Sparrows” porque se lhe construirmos um ninho agradável eles voltam sempre. | No caso da aula de EF, estes alunos exigem, por parte do professor, uma grande dose de criatividade, flexibilidade e imaginação para se ganhar deles a sua lealdade e melhorar o seu nível de satisfação e empenho. Embora muitos se sintam interessados em atividades novas e se envolvam nas mesmas, acabam por desinvestir quando estas se tornam repetitivas e monótonas, ou não lhes agradam, avolumando o número de desistentes.

alunos que gostam de EF

Imagem baseada nos dados apresentados no vídeo Outstanding Physical Education Lesson da Universidade de Birminghan – 37% das raparigas raramente ou nunca gostam da Educação Física. | 26% dos rapazes raramente ou nunca gostam da EF.


MITO DO ALUNO MÉDIO


Todd Rose começa a sua apresentação recordando que em 1948 a Força Aérea detetou uma diminuição na performance dos pilotos de caça. “Eles tinham bons pilotos que pilotavam excelentes aviões porém, a performance estava-se a deteriorar e não sabiam o porquê.”

A FA culpou inicialmente os pilotos, depois os instrutores e finalmente os próprios aviões, tendo finalmente percebido que o problema se situava na cabine de pilotagem. O cockpit foi projetado para o “piloto de tamanho médio“. De que serve ter a melhor tecnologia do mundo se o piloto não consegue alcançar os instrumentos críticos quando tem que tomar decisões de vida e de morte em frações de segundos?

O pressuposto era o seguinte: se projetarmos uma cabine de pilotagem para um piloto de estatura média, esta acomodaria a maioria deles. Porém, Gilbert Daniels provou que essa conjetura estava errada. Como se verificou, através de seu estudo, ele constatou que nenhum dos 4.000 pilotos analisados apresentavam dados antropométricos que se situavam na “média estatística” em todas as 10 dimensões de tamanho incluindo:

  1. Altura

    aviões dos anos 50

    U.S. National Archives / The Associated Press file photo

  2. Perímetro dos ombros
  3. Perímetro do peito
  4. Perímetro da cintura
  5. Perímetro dos quadris
  6. Comprimento das pernas
  7. Envergadura
  8. Medida do tronco
  9. Medida do pescoço
  10. Medida das coxas

Ele provou que não existia um “piloto médio”, mas que cada um tem um “perfil de tamanho irregular” (Recortado). Ninguém é igual em todas as 10 dimensões. Assim, a Força Aérea tomou uma atitude ousada e “baniu a média. Eles recusaram-se a comprar aviões de combate, onde a cabine fosse construída para o “piloto médio”. Em vez disso, eles exigiram que as empresas que produziram esses aviões, os projetassem “para os limites” das dimensões de tamanho. Inicialmente as empresas argumentaram que essas alterações iriam custar milhões de dólares, mas finalmente perceberam que a solução já existia. Importaram para as cabines de pilotagem os ajustes dos bancos que todos nós utilizamos nos nossos carros. Desta forma a performance dos pilotos melhorou muito apesar do facto dos atuais pilotos apresentarem uma elevada variabilidade nas suas dimensões antropométricas.

ANALOGIA COM A ESCOLA:

todd rose fotoNo caso da escola, temos o mesmo problema: se desenhamos um ambiente de aprendizagem para a média, fazemo-lo para ninguém! Todd Rose

COCKPIT – Cabine de Pilotagem do piloto COCKPIT – Cabine de Pilotagem do aluno COCKPIT – Cabine de Pilotagem do aluno na aula de EF

De seguida Todd Rose faz uma comparação ousada mas extremamente correta e inteligente, relacionando a realidade anterior com as nossas salas de aula, afirmando que estas são o cokpit dos futuros gestores da nossa sociedade. E tal como na força aérea, “existe um problema“. Investimos imenso dinheiro na educação em geral e na Educação Física em particular, mas estamos a ter os piores resultados!…


QUEM É O CULPADO


A primeira reação é encontrar o culpado!… de quem é a culpa?!…

Primeiro culpamos os alunos:

Atribuímos-lhes rótulos: têm “défice de atenção”, são “passivo-agressivos”, são “disléxicos”, são isto, são aquilo!… quando se atribuem rótulos que “justificam” o baixo aproveitamento, os professores de EF ilibam-se da responsabilidade relativa à ineficácia das suas aulas. E a realidade é simples, os professores preparam boas aulas, empenham-se e dedicam-se bastante, mas muitos dos alunos não aprendem!… Então o problema está “na aula” (concebida para ninguém!… aluno médio). Como afirma José Pacheco “não temos problemas de aprendizagem mas sim de ensinagem!…

Depois culpamos os Encarregados de Educação:

Estes são responsáveis pelos seus educandos. Encontramos muitas justificações como a “Ideologia do Handicap Sociocultural (PDF – página 133). Muitas vezes os factores sócio-culturais são considerados elementos dominantes na compreensão dos resultados escolares, nomeadamente na explicação do insucesso, recorrendo a argumentos extra-escolares e que, portanto, desculpabilizam o professor. Obviamente a escola e, mais concretamente, os professores não têm culpa do mau ambiente familiar do aluno, da sua falta de condições de estudo, dos pais que não se interessarem pela vida escolar dos filhos, das famílias monoparentais, etc. | Mas, Sugata Mitra, com a sua experiência conhecida como “O Buraco na Parede” provou que a Ideologia do Hadicap Sociocultural é um mito PDF.

Culpamos os professores:

Porque segundo Pamela D. Tucker & James H. Stronge (2005), o fator mais importante que afeta a aprendizagem dos alunos é o professor e como tal, se o aluno não aprende é porque o professor não ensina bem.

Mas ninguém culpou o modelo de organização institucional:

É impossível os professores de EF eficazes, que se esforçam diariamente, conseguirem bons resultados quando utilizam ferramentas desadequadas (estratégias, modelos e métodos), que não facilitam a eclosão do potencial individual de cada aluno!… Temos que introduzir “cockpits ajustáveis” (Variabilidade: educação FÍSICA para todos os tipos de corpos).


VARIABILIDADE & DIVERSIDADE


ESTUDANTE-MÉDIOCada aprendiz possui um “perfil de aprendizagem recortado”, manifestando pontos fortes, aspectos médios e outros que precisam ser trabalhados, tal como no caso dos assentos de cockpit dos pilotos de jato. Se desenhamos um ambiente de aprendizagem para a média, fazemo-lo para ninguém. Nós criamos ambientes de aprendizagem nas aulas de EF onde não podemos esperar que os alunos tenham o desempenho motor, emocional e social que esperamos deles, porque ninguém é mediano.

“Nós ainda projetamos os nossos ambientes de aprendizagem, como os nossos livros didáticos de educação física, estilos de ensino, avaliação, programas e currículos para o aluno médio. Nós designamos esta estratégia de “adequada ou apropriada para a idade” e achamos que é suficientemente boa para os alunos, mas não é!” Todd Rose fala sobre as diferentes dimensões da aprendizagem dos nossos alunos porque o perfil dos aprendizes varia em muitas dimensões da aprendizagem (multi-inteligências).


Má Conceção do Modelo de EF


Ao longo das últimas duas décadas, uma acumulação significativa e substancial de evidências tem vindo a mostrar a dificuldade em se inferir o que quer que seja acerca dos indivíduos a partir de conclusões tiradas com base numa população ou amostra. Molenaar (2004) argumenta que tais inferências só são possíveis em condições muito estritas designadas por pressupostos ergódico que nunca se adequam para os indivíduos.

Para além disso, as evidências são crescentes e vão no sentido de provar que, com maior frequência, do que se pode supor, as conclusões tiradas com base em amostras, representam:

  • Na melhor das hipóteses, um pequeno conjunto de indivíduo.
  • No pior dos casos, são artifícios estatísticos que não representam ninguém.

  • Todd Rose, Parisa Rouhani and Kurt W. Fisher (2013), “The Science of the Individual”; Mind, Brain and Education: PDF

O nosso argumento é que os indivíduos se comportam, aprendem e se desenvolvem de formas muito distintas, mostrando padrões de variabilidade que não são capturados pelos modelos que se baseiam nas médias estatísticas. Desta forma, qualquer tentativa significativa que procure desenvolver a ciência da individuo começa necessariamente por ter em consideração a variabilidade individual que é pervasiva em todos os aspetos do comportamento e em todos os níveis de análise.

A ciência do grupo é um pobre substituto para uma verdadeira ciência do individual.

Os modelos tradicionais assumem com frequência que as conclusões acerca da população se podem, automaticamente, aplicar a todos os indivíduos. Este pressuposto é simples, compreensível e necessário para justificar o uso das médias para se compreender os indivíduos. PORÉM TAMBÉM É ERRADO (L. Todd Rose, 2013)!…

A escola está concebida e projetada para ninguém (“Mito da Média“), e no entanto, continuamos a aceitar o insucesso como um facto normal da vida académica: uma punição para os preguiçosos e uma recompensa para os trabalhadores. Barry Schwartz afirma que “substituir a sabedoria por regras não funciona!” Para Aristóteles saber como “dobrar a régua/regra” para que esta se adapte às circunstâncias é exatamente o que significa Sabedoria Prática. E todos sabemos que a escola dá quase pouco ou nenhum espaço para se fugir dos guiões (Programas, Currículos, Regulamentos, normas uniformes e rígidas, etc…).

igualdade vs equidade

foto barry schwartzBarry Schwartz afirma que “nós estamos sempre a tentar encontrar o equilíbrio correto. Aristóteles designou-o por média. Porém, esta Média não é a Média Aritmética, mas o equilíbrio correto numa determinada circunstância (…) através da aplicação da regra flexível

Não há ato educativo sem sabedoria, isto é, sem uma reflexão sobre as suas finalidades e os processos didáticos suscetíveis de o concretizar“. Não existe sabedoria em reproduzir regras e guiões predefinidos com um publico tão heterogéneo e com motivações tão dispares.

Deborah Tannehill 1Deborah Tannehill (2016 – 10º CNEF) afirma que as opções curriculares precisam refletir os interesses e personalidades dos estudantes, a cultura da escola e os recursos da comunidadePropõe que os professores de educação física devem orientar a sua abordagem em função do aluno em vez de uma abordagem centrada nas matérias, colocando a aprendizagem dos alunos no coração do ensino.


Mentalidade da Linha de Produção:


2

CONFORMIDADE COM A MÉDIA:

As nossas escolas ainda estão organizadas em função do modelo da era da Industrialização e confunde-se a escola com uma linha de produção:

  • Campainhas.
  • Conteúdos separada por unidades do saber.
    1
  • Idade Cronológica como fator normalizador do potencial individual.
  •  Igualdade nos tempos e ritmos de aprendizagem.
  • Currículo estandardizado e uniformizado.
  • Avaliação motora estandardizada.

Na verdade agora apercebo-me, por muito que me esforce e dê o meu melhor, o modelo de ensino (imposição institucional), que aplico, desrespeita os alunos de muitas formas. Por esse motivo eles continuam sistematicamente a alimentar o único lobo que faz sentido quando se sentem impotentes, desconsiderados e desrespeitados na sua vontade, motivação, interesses e personalidades. É fácil estacionarem entre a agressividade (quadrante 4) e a resignação (quadrante 3), porque a intensidade da energia na aula é baixa e a sua qualidade é negativa.

energia-organizacionalO resultado do investimento em Literacia Emocional na aula de EF traduzir-se-á num desempenho na zona produtiva e o sucesso escolar acontece.

A Fábula dos Dois Lobos (Cherokee)

Certo dia, um jovem índio cherokee aproximou-se do seu avô para pedir um conselho. Momentos antes, um de seus amigos havia cometido uma injustiça contra o jovem e, tomado pela raiva, o índio resolveu aconselhar-se junto daquele ancião.

  • ANCIÃO: O velho índio olhou fundo nos olhos de seu neto e disse: “Eu também, meu neto, às vezes, sinto grande ódio para com aqueles que cometem injustiças sem sentir qualquer arrependimento pelo que fizeram. Mas o ódio corrói quem o sente, e nunca fere o inimigo. É como tomar veneno, desejando que o inimigo morra.”
  • JOVEM: O jovem continuou olhando, surpreso, e o avô continuou:
  • ANCIÃO: Várias vezes lutei contra esses sentimentos. É como se existissem dois lobos dentro de mim.
    • lobo bomUm deles é bom e não faz mal. Ele vive em harmonia com todos ao seu redor e não se ofende. Ele só luta quando é preciso fazê-lo, e de maneira correta.
    • Mas o outro lobo… este, está cheio de raiva. Ao menor sinal de contrariedade desencadeia-se nele um terrível acesso de raiva. lobo mauEle briga constantemente com todos, sem nenhum motivo aparente. A sua raiva e ódio são muito grandes e por isso ele não mede as consequências dos seus atos. É uma raiva inútil, pois não irá mudar nada.
  • ANCIÃO: Às vezes, é difícil conviver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos tentam dominar o meu espírito.
  • JOVEM: O garoto olhou intensamente nos olhos de seu avô e perguntou: “E qual deles vence?
  • ANCIÃO: Ao que o avô sorriu e respondeu baixinho: “Aquele que eu alimento.

circumplex personalidade 4 loboNão basta ajudar os alunos a tomar consciência das suas emoções destrutivas e ensiná-los a regulá-las, temos que mudar urgentemente este modelo educativo. Caso contrário, enquanto eu e todos os professores estiverem na linha da frente, estaremos sempre expostos aos lobos revoltados.


Mesma Oportunidade de Sucesso?


Education-cartoonQuando um professor propõe um exercício critério, fá-lo para o “aluno médio” procurando depois fazer a distinção entre os “Bons” e os “Maus“. Desta forma a Instituição em geral, e a disciplina de EF em particular, garante, perante a sociedade, a sua credibilidade e a sua competência certificadora.

animais divergente

Será que todos os alunos estão a ser respeitados e valorizados no seu perfil de individualidade e variabilidade?

O preconceito de “bons” e “maus”!

No entanto é legítimo perguntar se, de facto, todos os alunos estão em pé de igualdade quando recebem a mesma matéria, ou quando são avaliados da mesma forma?

Cada aluno deve escolher as suas matérias nucleares ou importantes para si em função do seu objetivo individual!…

alguns-objetivos

Quando impomos os mesmos objetivos para todos os alunos (Mito da Média), estamos a ferir esta premissa, a promover o insucesso e abandono, bem como a hipotecar inúmeros talentos e a frustrar imensas crianças e jovens.

podio

Será este o modelo de avaliação válido e inclusivo?


PROGRAMA DE EF – MITO DA MÉDIA


referencial-axiologico-educacao-fisicaO modelo ideológico que fundamenta a Educação Física, tem sido defendido por professores que acreditam que os objetivos e conteúdos desta disciplina devem estar reféns do modelo desportivo (II – Vinculação Total com o Desporto). Os Programas de Educação Física são disso um forte exemplo.

Programas de Educação Física:

  • 1º Ciclo do Ensino Básico: PDF | Expressão e Educação Físico-Motora (Desporto Escolar): PDF
  • 2º Ciclo do Ensino Básico: PDF
  • 3º Ciclo do Ensino Básico: PDF
  • Ensino Secundário: PDF
  • Curso Profissional: PDF
  • Curso CEF: PDF

O facto dos programas privilegiarem determinadas matérias chamadas “nucleares” condiciona os alunos a um modelo reducionista de formação motora. Os programas de Educação Física confundem-se com uma iniciação à prática desportiva e a avaliação centra-se em componentes críticas de gestos técnicos. Este facto mostra uma clara orientação para os pressupostos algorítmicos do comportamento motor (Padrões motores). Ou seja, pretende-se que todos os alunos de Norte a Sul de Portugal, de Este a Oeste, sejam condicionados, programados com as mesmas condutas motoras do mesmo modelo de exploração corporal quando culturalmente prevalecem disparidade. A isto chama-se a “mito da média“, “Normose”. Todos os alunos são tratados da mesma forma! A prescrição de exercício físico segue os mesmos padrões normalizados e atribui-se a mesma dose para todos os alunos como se fossem um só.

condutas motoras

Como é que conseguimos promover no aluno o “desenvolvimento da sua interioridade, facilitar os meios e formas pessoais de pensamento, conhecimento e expressão motora” (Vitor da Fonseca), “garantir o direito de praticar a sua expressão pessoal para que a singularidade do seu sentir e a sua interioridade se possam exprimir (Jean LeBoulch)”, se apostamos numa Educação Física normalizada e desportivizada. Os desportos coletivos e individuais têm muitas virtudes, mas apenas representam uma parcela num conjunto muito mais vasto de opções de exploração do movimento e da quietude.

CONCEÇÃO ANALÍTICA DE TRANSMISSÃO DOS CONTEÚDOS:

  • Israel Cota e col., 2010; “O Teaching Games for Understanding – TGfU – como modelo de ensino dos jogos desportivos coletivos”; Rev. Palestra; V. 10; pp. 69-77.

Até à década oitenta do século passado, os modelos de ensino estiveram centrados na teoria comportamentalista, que sustentava uma conceção analítica de transmissão dos conteúdos e conhecimentos, partindo do menos para o mais complexo, na qual se preconizava o ensino da técnica como aspeto fundamental para o desenvolvimento das ações de jogo e se destacava os comportamentos do professor|treinador, como foco das investigações. Desses modelos, o de instrução direta (direct instruction) é o mais divulgado e amplamente utilizado no campo prático, sendo recomendado por muitos pesquisadores devido ao facto do processo de instrução ser estruturado, dirigido e controlado pelo professor. (Permite-lhe controlar melhor as variáveis de eficácia). (…) para além das críticas que se instalaram no campo científico, também apresentaram 5 causas justificativas da insatisfação do ensino do jogo centrado na aquisição das habilidades técnicas, no contexto escolar, que constituem razões suficientes para questionar a efetividade deste modelo de ensino:

  • O reduzido sucesso na realização das habilidades técnicas.
  • A incapacidade dos alunos criticarem a prática do jogo.
  • A rigidez das habilidades técnicas aprendidas.
  • A baixa autonomia dos alunos durante o processo de ensino e aprendizagem.
  • O conhecimento reduzido acerca do jogo.

CORRENTES CONSTRUTIVISTAS:

A emergências das correntes cognitivistas e construtivistas centradas no processamento de informação, tomada de decisão e na construção do conhecimento, têm ganho maior notoriedade uma vez que propiciam a ampliação dos modelos de investigação sobre os jogos em domínios negligenciados. (…) neste contexto, o modelo de ensino dos jogos para a compreensão (Teaching Games for Understanding – TGfU), tem recebido muita atenção no âmbito do ensino dos jogos desportivos coletivos.

Seleção do tipo de jogo: a escolha do tipo de jogo baseia-se no pressuposto que os jogos selecionados para a aprendizagem devem oferecer uma multiplicidade de experiência que possibilitem mostrar similaridade e diferenças entre jogos semelhantes e distintos:

Semelhanças estruturais:

  1. Jogos de alvo (golfe, bowling, bilhar, tiro com arco)
  2. Jogos de rede/parede (ténis, badminton, squash, voleibol)
  3. Jogos de batimento (basebol, softball, criquet)
  4. Jogos de invasão|territorial (futebol, basquetebol, andebol, rugby, corfebol, floorbal, fresbee, etc…

ALUNOS, GAME DESIGNERS:

Ao contrário do atual programa de EF que prescreve a todos os alunos os mesmos jogos desportivos coletivos nucleares, no TGfU, o aluno apenas precisa de escolher 1 de entre os 4 conjuntos ou categorias para experimentar aspetos semelhantes. Por outro lado, o professor pode propor aos alunos que, recorrendo à sua criatividade de Game Designers, possam misturar regras, espaços de jogo, materiais e objetivos e criar os seus próprios jogos em função de determinados objetivos e experiências que se pretenda explorar. Ou seja, desformaliza-se a atual rigidez da abordagem na aula de EF.


SALA DE AULA DO FUTURO


RENOVAÇÃO EDUCATIVA NAS DISCIPLINAS “SENTADAS”:

Atualmente a Direção Geral da Educação tem investido nas Future Classroom Lab – FCL ou Salas de Aula do Futuro, espaços totalmente equipados e virados para o ensino no século XXI. A iniciativa LA/FCL começou em setembro de 2014, e é dinamizada por uma equipa de professores que, apoiados pela ERTE/DGE, concretizam os objetivos delineados para esta iniciativa, a construção de uma rede de professores visando a expansão da integração de práticas inovadoras ao nível nacional.

niveis-de-transformacao

Tendo em consideração estes aspetos, a Sala de Aula do Futuro servirá três objectivos principais:

  1. Melhoria dos resultados dos alunos,
  2. Formação de professores
  3. Divulgação de equipamentos relacionados com o ensino e a sua utilização em sala de aula.

Segundo este conceito, os espaços de aprendizagem devem ser cada vez mais versáteis e adaptáveis, permitindo utilizações diversificadas e moldáveis às diversas metodologias de ensino. A sua concepção inclui agora equipamentos e ferramentas que permitam o acesso a diversas fontes de informação e aos mais variados eventos fora da escola, permitindo aos alunos uma participação direta no seu processo de aprendizagem, contextualizado pela realidade social e tecnológica, dando maior sentido às aprendizagens e tornando-as mais significativas.


Percursos Alternativos


Sir Ken Robinson cita o exemplo dos programas de educação alternativos. Estes são programas concebidos para reintegrar os miúdos na educação. Têm certas características comuns:

  • São muito personalizados;
  • Dão forte apoio aos professores;
  • Têm laços apertados com a comunidade;
  • Assumem um currículo abrangente e diverso;
  • Utilizam frequentemente programas que envolvem os estudantes, tanto fora como dentro da escola.
  • E funcionam…

O que é interessante para mim é que esta é a chamada “educação alternativa“. Percebem? E as provas que vêm de todo o mundo mostram que se todos fizéssemos isto, não seria preciso uma alternativa. Garantiríamos o sucesso de todos os alunos!…

podio todos ganham


CONSTRANGIMENTOS DA EF


Nós vivemos numa sociedade onde as soluções adotadas para resolver os nossos desafios são principalmente de natureza tecnológica. A partir do momento que os objetivos e conteúdos da EF ficaram totalmente vinculados ao modelo desportivo, a nossa disciplina ficou refém de um conjunto de constrangimentos arquitetónicos, materiais e tecnológicos que dificultam a tarefa do professor de Educação Física. Ou seja, para podermos praticar as várias modalidades desportivas com conforto e segurança, sem dependermos dos caprichos atmosféricos, precisamos de pavilhões desportivos, salas desportivas equipadas, pistas de atletismo, piscinas e outros infraestruturas que, para além de serem onerosas, carecem de uma manutenção regular dispendiosa. Ou seja, a nossa disciplina ficou refém de condicionantes materiais sem as quais o Professor de EF deixa de saber “dar uma aula”, sentindo-se desprovido de ferramentas adequadas para cumprir a sua tarefa.

  • Carla Cristina Barreira (2012). Conforto e qualidade ambiental na utilização de parques desportivos escolares em Portugal.: PDF

Na verdade, os professores sabem como iniciar os alunos na prática desportiva (progressões de aprendizagem desportivas), mas conhecem relativamente pouco sobre o corpo e o movimento fora do contexto desportivo. A industria do fitness evoluiu bastante o nos ginásios multiplicam-se os métodos de treino e as opções motoras para muitos gostos diferentes. A EF desatualizou-se ao ficar refém do olimpismo e as aulas tornaram-se numa repetição monótona das mesmas rotinas (matérias nucleares), anos a anos consecutivos, com a consequente desmotivação de muitos alunos e professores.

O que sabemos nós sobre a anatomia emocional? O que sabemos nós sobre o método natural ou as práticas Body/Mind, os jogos cooperativos, o treino em circuito, o personal training, etc…?

coubertin versus hébertPIERRE DE COUBERTIN

SOLUÇÕES:

Na minha perspetiva, a EF deve atualizar o seu reportório motor com áreas da motricidade tais como:

  • Método Natural e as suas atualizações como o parkour, o movimento na natureza e o treino funcional.
  • Atividades que se praticam no contexto do fitness tais como as aulas de grupo e muitos métodos de treino apelativos tais como o crossfit, ketlebell, CORE, TRX, calisténico, etc.
  • Atividades Body/Mind (Mente-corpo) tais como o treino mental, Relaxamento Muscular Progressivo, Yoga, Tai-Chi-Chuan, meditação, etc.
  • Implementar as multinteligências (Literacia Emocional), ajudanto os alunos a tomar consciência do seu corpo e aprender a regular as suas emoções.
  • A psicomotricidade foi afastada dos currículos de EF universitária e relegada ao papel de reabilitação psicomotora. A meu entender, os professores de EF saem das faculdades muito penalizados sem uma formação integral e abrangente da dimensão da relação mente-corpo e tratam o corpo dos alunos como instrumentos de performance. A mecanobiologia, área desenvolvida por Donald Ingber provou que o tónus é uma entidade fisiológicamente real tendo explicado os seus mecanismos celulares.

quadro-extensao-da-educacao-fisica

  • Banir a Média da EF. Prescrever o exercício físico e as atividades motoras de forma personalizada e individualizada. No primeiro ciclo apostar sobretudo no Brincar, dando espaço para que os alunos explorem os espaços e o movimento com autonomia. Permitir que os alunos encontrem a sua fonte de motivação. Os alunos devem ser “Game Designers” e criar os seus próprios jogos e desafios com base em variáveis introduzidas pelo professor (Descoberta Guiada).
  • Banir a aula como modelo de organização do ensino (Professor Eficaz), centrando a aprendizagem no aluno.
  • Centrar a prescrição e avaliação dos alunos com base em indicadores fisiológicos individuais tais como a FC, a VFC (Variabilidade da Frequência Cardíaca), o VO2, o dispêndio calórico e outros dados antropométricos, etc…
  • A prescrição deve ser personalizada e os alunos seleccionam o método de treino e os exercícios físicos que mais se adequam ao seu objetivo e motivação individual. Evoluir para modelos de tutoria entre pares em que os alunos se ensinam mutuamente e o professor supervisiona (Centrar o ensino e aprendizagem no aluno). Cada aluno escolhe o seu caminho para alcançar objetivos comuns como por exemplo o desenvolvimento da aptidão física, das habilidades motoras básicas e habilidades motoras compostas e complexas.

divergir

pt na educacao fisicvaoperacionalizar o PT na aula de educacao fisicaexplicar-o-pt-aos-alunos

  • Orientar a Educação Física e as suas tarefas heurísticas onde os alunos exploram várias possibilidades e soluções para resolverem desafios físicos e de colaboração em equipa em vez de atividades algorítmicas, padronizadas e prescritas pelo professor, cuja solução apela à convergência, a soluções pré-definidas e pré-determinadas.
  • Investir sobretudo em Estilos de Ensino centrados nos alunos que solicitam muito mais todos os canais de aprendizagem e permitem que cada aluno evolua em função da sua individualidade.

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  • Recorrer sobretudo aos métodos ativos da pirâmide de aprendizagem onde os alunos colaboram entre si, prescrevendo os seus exercícios e executam com a supervisão dos colegas.

Diapositivo2

Diapositivo3

  • Desvincular os objetivos e conteúdos da EF do modelo desportivo, o qual continua a ter um lugar importante na escola, mas não o principal. Centrar os objetivos e conteúdos da EF em torno do “desenvolvimento da interioridade humana (Vitor da Fonseca)”, na “atividade de expressão pessoal (Jean LeBoulch)e numa “abordagem em função do aluno (Deborah Tannehill – 2016 – 10º CNEF)”.

multinteligencias-suaves

  • Investir nas multinteligências em Educação Física para que os alunos aprendam a regular as suas emoções e a trabalhar em equipa de forma colaborativa.
ESCOLA FELIZ POSITIVA 4

Este é o modelo que proponho para o desenvolvimento de uma EF (motricidade) multidimensional

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