Literacia Emocional na aula de Educação Física


CONSTRUIR O CARÁTER


Margarida Gaspar de Matos no seu livro “Comunicação, gestão de Conflitos e saúde na escola” (PDF) refere, quando aborda “as competências de vida e desporto”, que o desporto oferece inúmeras oportunidade para promoção do desenvolvimento psicossocial dos participantes. Este contexto constitui um fórum onde se aprendem princípios de responsabilidade, conformidade, persistência e tomada de decisão. Através da prática desportiva, os jovens redefinem a sua identidade, descobrem novas competências e têm a possibilidade de aplicar aqueles princípios a áreas extradesportivas. (…)

A crença de que a prática desportiva ajuda a construir o caráter é bastante generalizada.

PORÉM!…


Peter Gray Brincarfree to play and learnPeter Gray afirma que as crianças perdem a sua motivação quando perdem a possibilidade de escolha, quando o adultos estão no comando, e como tal elas não aprendem as lições primárias, como estruturar as suas próprias atividades, resolver os seus problemas e assumir a responsabilidade pelas suas vidas. As crianças aprendem muitas lições com valor nos jogos informais que não aprendem no desporto organizado.

declínio do brincar e a patologia

pedinte de afeto

“Pedinte de afecto” é o nome dado a este cartoon, da autoria de Saeed, publicado no jornal iraniano Asre Mardom, a 17/02/2009. É um dos cartoons que fazem parte da edição do Expresso: Os autores World Press Cartoon. Sintra, 2010. Afeto, de fato, é o que falta a muita gente. Não só recebê-lo, mas também dá-lo… Hoje em dia, andamos de tal forma ocupados que nem nos apercebemos que esse é, sem dúvida, um bem essencial…

De facto, numa perspetiva idealista, é de considerar que num contexto em que para competir é necessário cooperar e para se ter sucesso é preciso comunicar eficazmente, definir objetivos, aceitar e assumir papeis num grupo, e em que a própria aceitação da competição implica, a aceitação de regras e o respeito pelo adversário e demais agentes enquanto elementos indispensáveis para o processo competitivo e a auto-superação, a prática desportiva seja uma escola de virtudes pelas muitas oportunidades de aprendizagem que proporciona.

As interações numa sala de aula (espaço desportivo, lúdico, de jogo), têm uma poderosa influência no desenvolvimento dos jovens. Em salas de aula de elevada qualidade, as interações são respeitosas, é garantida a autonomia através de estilos de ensino centrados nos alunos, o processo de ensino e aprendizagem desenrola-se de forma organizada, disciplinada e justa e a instrução é apropriada e efetiva. É muito mais provável que os alunos tenham um melhor desempenho académico e manifestem melhores habilidades sócio-emocionais, mostrando muito maior motivação para trabalhar e aprender. No entanto, a maioria dos jovens em Portugal não tem acesso a este tipo de experiências. Muitos ambientes de sala de aula falham na sua capacidade em envolver os alunos em termos académicos (motores), não conseguem promover o melhor potencial de aprendizagem e facilitam muito poucas oportunidades estruturadas para se construir e desenvolver as habilidades pro-sociais. Apesar da Educação Física, na sua organização social, ser mais interativa, permitindo maior mobilidade e flexibilidade nas dinâmicas relacionais (sociais), os alunos continuam a apresentar atitudes e comportamentos disfuncionais/incoerentes. O conflito com o professor (rebelião) é uma constante para alguns alunos, o assédio-moral entre colegas (bullying) acontece com frequência, e o domínio de muitas destrezas motoras manifesta-se incompleto e insuficiente.

O desenvolvimento destas virtudes não é automático, mas grandemente determinado pela qualidade da intervenção. Como é que podemos melhorar o clima da aula de EF através da utilização da RULER©, promovendo a aprendizagem emocional e social?


QUALIDADE DA INTERVENÇÃO


COGNIÇÃO SOCIAL:

De forma simplista, a cognição social é a reflexão sobre a forma como nos relacionamos com as outras pessoas. De facto, a cognição social é extremamente importante no ambiente social do grupo/turma de Educação Física. Os alunos têm que processar a informação social para navegar através das várias dinâmicas e situações sociais propostas pelos vários jogos e atividades físicas durante a aula de EF. Por exemplo, nós habitualmente interpretamos os sinais verbais e não verbais para discernir, tanto as  nossas disposições e intenções como as dos outros. Para alguns alunos, a habilidade para ler os outros, ou exprimir adequadamente pensamentos e sentimentos, apresenta-se subdesenvolvida, falível e frequentemente falha em situações de pressão situacional ou temporal. A cognição social, é diferente de socialização que pode ser vista como uma habilidade que, tal como a leitura, envolve várias funções neurodesenvolvimentais. Alguns alunos podem debater-se com o processo de socialização apesar de possuírem uma boa cognição social. A cognição social é multifacetada e por isso, um aluno pode deparar-se com dificuldades num aspeto deste construto apesar de exibir forças noutros aspetos.  Os investigadores demonstraram que um pensamento social limitado, dirigido para as situações e para os outros bem como para si próprio, conduz a problemas comportamentais.

Componentes da cognição social:

  • Compreensão da forma complexa como as emoções funcionam.
  • Reconhecimentos das emoções em nós e nos outros.
  • Compreender a perspetiva das outras pessoas.
  • Compreensão interpessoal geral.
  • Gerir o início, a taxa, intensidade e duração das interações sociais.
  • Compreender o nosso efeito sobre os outros.

Por exemplo, um aluno pode interpretar erradamente uma situação e pensar que os outros estão a ser agressivos ou injustos para ele quando pode não ser o caso. A informação sobre a cognição social e outras funções que afetam o comportamento podem ser recolhidas pelos Professores de Educação Física.

Os ambientes que ignoram as necessidades emocionais e sociais dos jovens comprometem o desenvolvimento. Segundo a Teoria da Auto-Determinação, para que os jovens se desenvolvam adequadamente eles precisam sentir-se ligados aos outros, competentes nas suas habilidades e o seu comportamento ser auto-orientado (autonomia). Escolas que se comprometem em ir ao encontro das necessidades emocionais e sociais das crianças, promovem interações saudáveis entre os alunos e professores através de ambientes calorosos, acolhedores e nutridores que se traduzem em ganhos académicos bem como na qualidade do bem-estar e relações empáticas.

Como é que um professor de EF consegue prevenir problemas de comportamento?

Com base na minha experiência, apesar de procurar ferramentas que me ajudem nesta tarefa difícil de lidar com os alunos, na sala de aula, que manifestam uma cognição social deficitária, nem sempre consigo funcionar como o “continente das angústias deles”. Por vezes vejo-me a ser arrastado para o triângulo opressivo ou de desautorização pessoal, sentindo-me agredido pelas atitudes de certos alunos (personalizo-as porque são dirigidas a mim). Sou muitas vezes visto, por alguns alunos, como um perpetrador (agressor), e reagem às minhas orientações e imposições, sentindo-se vítimas das regras, das supostas injustiças, da falta de autonomia para decidir (controlo as decisões de pré-impacto, impacto e pós-impacto), das “faltas de respeito” e/ou da aparente falta de sensibilidade da minha parte como professor. Naomi I. Eisenberger, e colaboradores (2003), realizaram uma investigação sobre a exclusão social e constataram que esta provoca uma resposta no cérebro, idêntica à dor física, ativando respostas comportamentais de defesa daquilo que consideram uma ameaça.


TRIÂNGULO DRAMÁTICO


O triângulo dramático é um modelo psicológico e social da interação humana em análise transacional (AT), descrito por Stephen Karpman, usado em coaching para explicar relacionamentos disfuncionais

Sempre que contamos uma história sobre a nossa experiência ou doutrem, identificamos no elenco três papeis definidos, que formam um triângulo opressivo de perda de soberania individual e/ou desautorização pessoal.

Todos nós, conscientes ou não disso, passamos pelos três papeis, em vários momentos da nossa vida. Quando vivemos em função deste guião da nossa história, criamos aquilo que se designa por “elo, vínculo ou compromisso traumático” com os actores principais da nossa narrativa porque nos ligamos a eles a partir do nosso “eu feridofalso eu.

triângulo de karpman 1

Estes personagens são:

PERPETRADOR (Vilão, perseguidor, o mau) – Crenças: “tu és o problema! O que é que se passa de errado contigo!

  • Tu não estás bem, eu estou! Por isso faz o que te digo (obedece);
  • Crítico depreciativo;
  • Rebaixa os outros;perpetrador icon
  • Culpabiliza e aponta o dedo;
  • Mantém as vítimas em baixo;
  • Movido pela raiva ou ressentimento;
  • Rigidez no pensamento;
  • Mandão.

VÍTIMA – Crenças: Estás-me sempre a fazer isto! Eu mereço isto! Eu estou indefeso!

  • Eu desisto;
  • Sente-se oprimido, desanimado, envergonhado, desempoderado, incapaz e mal compreendido.vitima icon 1
  • Sente-se “preso/atraído” a um salvador para validar os seus sentimentos;
  • Recusa-se a tomar decisões para resolver os problemas (procurar ajuda e espera que o outro cuide dele e o proteja), e não quer mudar;

SALVADOR – Crenças: Eu tenho de resolver isto! Eu sou a solução!

  • Facilita ajuda mesmo quando não quer;salvador icon 4
  • Sente-se culpado e ansioso se não ajudar;
  • Sente-se ligado à vítima quando esta é dependente;
  • A ato de salvar traz o sentimento de ser capaz;

Esta dinâmica mantém muitas crianças no quadrante da “hostilidade”.


MATURIDADE EMOCIONAL DO PROFESSOR.


coach-prof-educacao-fisicaComo professor de EF, nem sempre consigo ter a presença de espírito, porque não é fácil, bem como a calma necessária para chegar ao conflito principal do aluno (por vezes o meu próprio conflito interior interfere, outras vezes é o cansaço, o desgaste), porque não lido com um, mas com vários alunos ao mesmo tempo, o que dificulta a tarefa. Normalmente os alunos projetam as suas experiências para o adulto (e vice-versa), neste caso para o professor, uma vez que sozinhos não as conseguem “digerir”, ou seja, não conseguem contê-las, dar-lhes uma resposta, precisam de um continente para esses conteúdos insuportáveis. Como nem sempre consigo funcionar como um amortecedor emocional face a manifestações de agressividade e “desrespeito” – passividade-agressiva e agressividade (Medo) – devolvo a angústia ao aluno e o conflito instala-se. soccer-referee-iconEssa devolução pode assumir várias formas, chamadas de atenção, admoestações, repreensões, castigos, exclusão do jogo ou expulsão da sala de aula e eventualmente participações de ocorrência e/ou disciplinares. Quando recorro a estas estratégias punitivas para extinguir os episódios pontuais e/ou recorrentes de indisciplina, funciono como modelo agressivo (assédio moral), e reforço o meu papel de perpetrador aos olhos do aluno. Para além deste aspeto, por vezes torna-se necessário aumentar a frequência e a intensidade destas estratégias para continuarem a ter efeito sobre o comportamento dos alunos, uma vez que estas opções acabam por ser banalizadas e deixam de surtir efeito. 

bem estar e felicidade2Torna-se premente prevenir estes problemas comportamentais incorporando ferramentas que nos ajudam a treinar o potencial individual de cada aluno nas suas várias dimensões. Obviamente que falo da Literacia Emocional como ferramenta necessária e fundamental para reconstruir um ambiente afetivo e relacional saudável e transformar o grupo/turma socialmente disfuncional numa equipa funcional, coerente e articulada.

Porém, é importante que o professor, ele próprio, trabalhe a sua maturidade emocional uma vez que também está refém dos seus padrões emocionais aprendidos durante a sua vivência, nas várias fases da sua vida.

Relação Professor Aluno:

Os estudos dos últimos 30 anos revelam que os alunos aprendem melhor quando percebem o ambiente da sala de aula como mais positivo (Dorman, 2002; Fraser, 1998). Enquanto adulto responsável pelos processos educativos, cabe ao professor o estabelecimento de uma relação positiva com os alunos, a promoção do sentido de afiliação, coesão, respeito mútuo, apoio e sucesso nas aprendizagens.

O modelo, desenvolvido com base no diagnóstico interpessoal da personalidade de Thimothy Leary (1957), organiza-se em dois eixos que representam as dimensões importantes na comunicação (Figura 1):

  • A Influência (medida em que o professor dirige e controla a comunicação). A Influência, situada na vertical, organiza-se em duas dimensões:
    • Dominância (D: o professor determina as atividades dos alunos).
    • Submissão (S: os alunos determinam as suas atividades). Dentro deste eixo DS encontram-se diversos comportamentos do professor relacionados com Liderança, Responsabilidade/Liberdade dos alunos, Insegurança e Rigor).
  • A Proximidade (grau de cooperação ou aproximação entre o professor e o aluno) (Wubbels, Brekelmans, Brok, & Tartwijk, 2006). A Proximidade, que assume o eixo horizontal, é constituída pelas dimensões:
    • Cooperação (C: o professor demonstra aprovação pelos alunos).
    • Oposição (O: o professor demonstra desaprovação aos alunos e aos seus comportamentos). Os comportamentos que correspondem a este eixo CO são Apoio, Compreensão, Insatisfação e Repreensão (Oord & Brok, 2004).

modelo interpessoal do comp. do prof

De acordo com algumas investigações, os professores que mais contribuem para o êxito dos alunos exibem padrões de comportamento de Dominância (alto nível de Influência) e Cooperação (alto nível de Proximidade) (Wubbels & Brekelmans, 2005; Wubbels et al., 2006). No entanto, mais do que as intenções do professor, parece essencial abordar os pensamentos, crenças e sentimentos dos alunos acerca das características do professor (Schunk & Meece, 2006). Segundo Khine e Fisher (2004) esta percepção do comportamento do professor é um forte mediador entre as características instrutivas e os resultados académicos. Quando os alunos sentem apoio e suporte emocional por parte do professor, empenham-se mais nas tarefas escolares, despendem um maior esforço, pedem ajuda e usam estratégias auto-reguladoras da aprendizagem, alcançando melhores resultados académicos (Patrick et al., 2007). Por outro lado, a percepção de uma pobre gestão da sala de aula estimula a resistência dos alunos face às tarefas escolares e, consequentemente, o comportamento inadequado, podendo até contribuir para a violência escolar (Wubbels, 2007).

modelo interpessoal do comp. do prof 1

Porém, a minha experiência como Prof. de EF, com quase 3 décadas de relação pedagógica no terreno, mostra-me que quando opto por um “padrão de comportamento de influência-dominância”, escolhendo sobretudo o ensino programado e o método expositivo, muitos alunos rebelam-se contra a minha autoridade e resistem, manifestando hostilidade. Ou seja, tal como Benjamim Bloom afirmou, se eu ensinar todos os alunos da mesma forma, concedendo tempos iguais para a realização das tarefas, indicando a todos as mesmas actividades, dando o mesmo tempo para esclarecer dúvidas, prescrevendo a mesma carga física e os mesmos exercícios, e avaliando-os da mesma forma, eles não só não aprendem|progridem como põem em causa a minha autoridade (alunos do ensino secundário, 10º, 11º e 12º anos), porque sentem a injustiça e inadequação da minha orientação. Apercebi-me que os alunos para quem esta forma de gestão era ideal aprendiam bem, mas vários outros, com diferentes ritmos de aprendizagem, tinham graus de desempenho progressivamente menor e constituem focos de indisciplina. Constatei que Peter Gray tem razão quando afirma que “as crianças|jovens perdem a sua motivação quando deixam de ter a possibilidade de escolha (padrões de comportamento de Influência-Dominância do Professor), quando o adulto estão no comando, e como tal elas não aprendem as lições primárias, como estruturar as suas próprias atividades (criatividade e liberdade), resolver os seus problemas (autonomia) e assumir a responsabilidade pelas suas vidas”.

aproximacao ou afastamento cerebro

Tal como David Rock afirma afirma no seu artigo “managing with the brain in mind”, o cérebro humano é um órgão social e as suas reações fisiológicas e neurológicas são moldadas de forma direta e profunda pelas interações sociais”. O modelo SCARF envolve 5 domínios da experiência social humana, o estatuto (valor pessoal), a certeza (prever o futuro), autonomia, filiação e a justiça. Estes 5 domínios ativam quer o circuito da recompensa (aproximação) quer o da ameaça (afastamento). Ou seja, as crianças e jovens funcionam em função de respostas de aproximação-evicção. No caso de interações sociais “inseguras”, o seu corpo gera uma resposta de ameaça e produz uma reação de hostilidade ofensiva/defensiva ou uma retirada defensiva. Se o professor assume uma postura de Influência-Dominância, retiranto totalmente a autonomia dos alunos e/ou uma Proximidade-Oposição, criticando o valor das suas atitudes e ações (ameaça ao estatuto), mesmo que tenha razões para o fazer, desencadeia uma cascata de reações defensivas e o afastamento dos alunos. Por isso existem estilos de ensino que criam maior resistência nos alunos do que outros. Estilos de ensino demasiado centrados no professor são mais propensos a criar resistência nos alunos.

estilos de ensino

Estou fortemente convicto que, os estilos de ensino que solicitam nos alunos a descoberta e criatividade (liberdade de escolha), e recorrem sobretudo aos métodos ativos de aprendizagem (discussão em grupo em colaboração, a experimentação pela prática e sobretudo o ensinar os colegas), e lhes permitem personalizar a aprendizagem  (divergente), garantem-lhes maior motivação, participação, empenho e sucesso na aula de EF. 

metodos-ensino-ativo

estilos de ensino 2

Por outro lado, os estilos de ensino centrados nos alunos que solicitam a descoberta e a criatividade produzem efeitos muito mais sigificativos em todos os canais de desenvolvimento, (1) físico, (2) social, (3) emocional, (4) cognitivo e (5) moral. Veja-se o exemplo dos 4 gráficos seguintes, à medida que progredimos no sentido dos estilos de ensino centrados nos alunos, maior é o impacto nos 5 canais de desenvolvimento.

graficos canais desenvolvimento ee


LITERACIA EMOCIONAL em EF.


 

Embora o desporto ofereça inúmeras oportunidade para promoção do desenvolvimento psicossocial dos alunos, onde se aprendem princípios de responsabilidade, conformidade, persistência e tomada de decisão, como afirma Margarida Matos, não quer isso dizer que essas oportunidades sejam aproveitadas da mesma forma por todos os alunos, nem quer isso dizer que todos desenvolvam a sua cognição social e capacidade de sociabilização de forma coerente e/ou construtiva. Para que os alunos redefinam a sua identidade (caráter), torna-se necessário que os professores recorram a ferramentas que promovam a aprendizagem emocional e social  (AES), de forma consciente.

A Educação Física é uma disciplina do currículo escolar  que apresenta algumas vantagens neste campo porque as interações sociais desenrolam-se num ambiente socialmente dinâmico e mais aproximado do contexto social exterior. Uma dessas ferramentas que ajuda a potenciar a performance académica e as competências emocionais designa-se por RULER© (Marc A. Brackett et al. 2012). 


RULER©


A Teoria da Mudança RULER© propõe que um clima socio-emocional positivo na sala de aula é fundamental para um processo de ensino-aprendizagem positivo. O suporte teórico para esta afirmação apresenta 2 argumentos:

  1. Um clima sócio-emocional positivo na sala de aula nutre as necessidades sociais básicas dos alunos. Quando elas são satisfeitas, eles mostram-se mais motivados para aprender e mais seguros para aceitar tarefas académicas e motoras mais desafiantes. Os alunos tornam-se mais recetivos às instruções e expetativas dos professores, o que por sua vez, potencia o ambiente e organização favorável da aula.
  2. Os professores, tal como os seus alunos, precisam de se sentir apoiados e competentes na sala de aula para estarem motivados, envolverem-se, e manifestarem um bom desempenho. A qualidade da relação com os alunos é uma das prioridades do professor, sendo fonte de alguma angústia quando não é positiva criando insatisfação e stress no professor.

apz com coraçãoOs Programas de Aprendizagem Emocional e Social (PAES), são concebidos para complementar o currículo de Educação Física (no nosso caso), através do ensino das destrezas emocionais e sociais que contribuem para um melhor ajustamento emocional e social e o maior sucesso académico. O currículo, RULER© – Feeling Words© (Maurer & Brackett, 2004) é um componente de uma abordagem compreensiva da Aprendizagem Emocional e Social (AES), designada por abordagem RULER. O programa ensina as crianças e jovens a:

  • Reconhecer emoções em si próprios e nas outras pessoas.
  • A compreender as causas e consequências de um vasto leque de emoções.
  • A rotular as emoções utilizando um vocabulário sofisticado.
  • A exprimir as emoções de forma socialmente apropriada.
  • A regular as emoções de forma efetiva (Competências RULER).

Esta abordagem promove oportunidades para os alunos desenvolverem as competências RULER©. Desta forma estamos a permitir que os alunos construam relacionamentos positivos, promovam um estilo de vida saudável (higiene mental e emocional), optem por comportamentos saudáveis em vez de problemáticos e melhorem a sua performance académica. A investigação de Damásio, 1994, mostrou que as emoções são pervasivas no dia-a-dia e afetam a forma como os alunos e o professor pensam, aprendem, sentem e agem, durante as suas interações nos espaços de aula. Se observamos uma aula de Educação Física, durante um qualquer período de tempo, é óbvio que as experiências diárias dos alunos estão saturadas com emoções tais como frustração, solidão (isolamento, exclusão), prazer (satisfação, alegria), interesse, etc… (tal como acontece com a experiência do professor de EF, outros professores, Diretor e outros elementos da comunidade escolar e dos seus membros da família). As alterações cognitivas (pensamentos), fisiológicas (sensações corporais) e comportamentais (ações) que acompanham as experiências emocionais são adaptativas quando a informação que fornecem é considerada, interpretada, compreendida, utilizada e gerida de forma efetiva. Ou seja, não basta  propor jogos que suscitam reações emocionais nos alunos e esperar que implicitamente, eles as aprendam a regular. É preciso tornar esses processos conscientes, abordando-os e para tal é preciso investir tempo.

Tradicionalmente um professor de EF eficaz é aquele que estrutura a atividade dos alunos de maneira a mantê-los o maior tempo possível empenhados (tempo na tarefa), informam clara e concisamente o que fazer, onde e porquê (Francisco Carreira da Costa, 1984). O professor eficaz é um bom gestor de recursos humanos, materiais e temporais e como tal, as alterações cognitivas, fisiológicas e comportamentais adversas são consideradas negativas, indesejáveis, desviantes e como tal sancionadas. Ou seja, este pressuposto de eficácia privilegia sobretudo a componente motora e o esforço físico. O clima favorável da aula fica dependente da qualidade das propostas do professor (jogos divertidos e dinâmicas interessantes), da motivação dos alunos, do estado de espírito nesse momento ou doutros fatores. O professor determina o conteúdo, o local, ordem das tarefas, início e fim, intervalo, descreve o exercício, demonstra, informa e avalia a qualidade da resposta (Gozzi, 1994). Cabe ao aluno apenas obedecer e seguir o que lhe é designado (Heteronomia). O desenvolvimento de competências emocionais requer pausas para reflexão sobre as colorações emocionais, explorar as causas e consequências das mesmas e aprender a regulá-las, porque o professor eficaz não consegue agradar a um público tão heterogéneo nos seus gostos, motivações, expectativas e dinâmicas emocionais. Na verdade uma criança ou jovem aluno, não é um recurso, é uma pessoa que precisa ser acarinhada e nutrida afetivamente.

triângulo de karpman 2

A ferramenta RULER© fundamenta-se na teoria da Inteligência Emocional a qual sugere que  a capacidade para processar informação emocional pode potenciar as atividades cognitivas (ex: pensamento, tomada de decisões e memória), promove o bem-estar e facilita o funcionamento social coerente (Mayer & Salovey 1997).


RULER© e o clima positivo na aula de EF:


1-saúde-energia-vitalidade-vigor

Esta ferramenta baseia-se no pressuposto que os alunos se tornam mais efetivos quando desenvolvem a literacia emocional e utilizam estas destrezas para resolver problemas e interagirem de forma efetiva com os outros. O currículo de Literacia Emocional ajuda os alunos a adquirir e desenvolver a capacidade para reconhecer, compreender, rotular, exprimir e regular emoções e facilita a aprendizagem destas competências (desconstrói o triângulo opressivo), que permitem criar um bom clima na aula de EF que, por sua vez, melhora o empenho e a participação. Quando a intensidade da energia do grupo/turma é elevada, os alunos mostram interesse, dinamismo, desenvoltura e sinceridade. Quando a qualidade desta energia é positiva, mostram satisfação, entusiasmo e alegria.

energia-organizacionalO resultado do investimento em Literacia Emocional na aula de EF traduzir-se-á num desempenho na zona produtiva e o sucesso escolar acontece.

A Fábula dos Dois Lobos (Cherokee)

Certo dia, um jovem índio cherokee aproximou-se do seu avô para pedir um conselho. Momentos antes, um de seus amigos havia cometido uma injustiça contra o jovem e, tomado pela raiva, o índio resolveu aconselhar-se junto daquele ancião.

  • ANCIÃO: O velho índio olhou fundo nos olhos de seu neto e disse: “Eu também, meu neto, às vezes, sinto grande ódio para com aqueles que cometem injustiças sem sentir qualquer arrependimento pelo que fizeram. Mas o ódio corrói quem o sente, e nunca fere o inimigo. É como tomar veneno, desejando que o inimigo morra.”
  • JOVEM: O jovem continuou olhando, surpreso, e o avô continuou:
  • ANCIÃO: Várias vezes lutei contra esses sentimentos. É como se existissem dois lobos dentro de mim.
    • lobo bomUm deles é bom e não faz mal. Ele vive em harmonia com todos ao seu redor e não se ofende. Ele só luta quando é preciso fazê-lo, e de maneira correta.
    • Mas o outro lobo… este, está cheio de raiva. Ao menor sinal de contrariedade desencadeia-se nele um terrível acesso de raiva. lobo mauEle briga constantemente com todos, sem nenhum motivo aparente. A sua raiva e ódio são muito grandes e por isso ele não mede as consequências dos seus atos. É uma raiva inútil, pois não irá mudar nada.
  • ANCIÃO: Às vezes, é difícil conviver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos tentam dominar o meu espírito.
  • JOVEM: O garoto olhou intensamente nos olhos de seu avô e perguntou: “E qual deles vence?
  • ANCIÃO: Ao que o avô sorriu e respondeu baixinho: “Aquele que eu alimento.

 

circumplex personalidade + triangulo opressivo 2

É importante implementar Currículos de Literacia Emocional para ajudar os jovens em idade escolar a efetuar um percurso no sentido do quadrante amigável (coerente) | Imagem adaptada: “A brief assessment of the interpersonal circumplex” de Patrick M. Markey & Charlotte N. Markey. | Triângulo Opressivo de Karpman

circumplex personalidade 1


RESUMO DO PROGRAMA RULER©


TRABALHO EMOCIONAL 2

O currículo RULER© Feeling Words é um currículo desenhado e estruturado (para os vários anos), com o objetivo de promover a aprendizagem social, emocional e académica, constituído por unidades e lições centradas nas palavras que evocam sentimentos, e nos conceitos relacionados (Maurer & Brackett, 2004). A metodologia RULER© tem como objetivo promover quer as habilidades emocionais como sociais das crianças e jovens (adolescentes), estimulando um ambiente/clima de aprendizagem ótimo que promove a efetividade académica, social e pessoal. Obviamente que os criadores desta ferramenta pensaram sobretudo numa aplicação nas disciplinas ditas académicas. Cabe-me a mim, neste artigo, propor esta adaptação à aula de Educação Física.

Tal como outros programas que favorecem e promovem a aprendizagem emocional e social  (AES), a RULER© utiliza uma abordagem sinergística relativamente à educação que incorpora o aprendiz, o processo de aprendizagem e o ambiente de aprendizagem que no nosso caso corresponde às aulas de Educação Física.

UNIDADE 1 – Vocabulário Emocional:

Os criadores deste programa referem que, devido às exigências e extensão dos currículos das várias disciplinas, é mais indicado explorar este currículo de literacia emocional nas aulas de línguas e história. Porém, obviamente que eu defendo que faz todo o sentido aplicar na aula de EF e até ser transversal a todas as disciplinas do Conselho de Turma, no caso do 2º e 3º ciclo e secundária e no 1º ciclo (mono-docência).

As aulas dos Programas de Aprendizagem Emocional e Social (PAES), envolvem personagens que vivenciam uma miríade de experiências emocionais que precisam de ser reconhecidas, compreendidas, caracterizadas, exprimidas e reguladas. No caso da disciplina de português recorre-se aos contos, histórias e narrativas, no entanto no caso da EF podemos utilizar vídeos de situações de jogo ou atividades físicas onde os atores/jogadores manifestam várias dinâmicas emocionais em várias contextos. Estes exemplos servem para demonstrar como é que as emoções desempenham um papel tão importante e integral nas interações humanas.

Esta unidade inclui um conjunto de passos que seguem uma estrutura básica que converge no sentido de um conjunto específico de objetivos de aprendizagem. As lições estão organizadas para ajudar os professores a diferenciar a instrução e oferece diferentes tipos de atividades de aprendizagem que vão ao encontro dos diferentes estilos de ensino/aprendizagem e necessidades dos estudantes.

Plutchik-graf-pequeno.

Roda das emoções de Plutchik. Teoria psicoevolucionária das emoções.

  • Passo 1 – introdução ao vocabulário emocional: Nesta fase os alunos exploram a compreensão mais aprofundada das palavras que exprimem sentimentos. Estas palavras exprimem e caracterizam o vasto leque de emoções inerentes à experiências humana tais como excitação, vergonha, alienação, compromisso, etc… Cada Unidade explora uma palavra que representa um sentimento e inclui várias aulas ou passos que são integrados nos conteúdos de cada aula.

quadro emocoes 2

mapa das emoções

quadro emoções

emoticons

  • Passo 2 – desenhos e explicações pessoais: os alunos interpretam um desenho abstrato usando a palavra que evoca um sentimento/emoção.
  • Passo 3 – associação académica e com o mundo real: os alunos relacionam a palavra/sentimento com o material académico ou situações que acontecem na sala de aula.
  • Passo 4 – associação com a família: os alunos debatem a palavra/sentimento com os outros elementos da família e escrevem um pequeno parágrafo sobre a conversa
  • Passo 5 – discussão em sala de aula: a turma debate a palavra/sentimento e a sua relação com a conversa que tiverem no seu ambiente familiar, material académico ou situação da aula.
  • Passo 6 – escrita criativa: no caso da EF proponho a linguagem corporal expressiva e criativa, com ou sem musica, em vez da redação de um curto ensaio usando a palavra/sentimento.

UNIDADE 2 – Empatia:

Na unidade de empatia, os alunos identificam situações num livro, na EF num vídeo relativo a um jogo ou evento desportivo, onde o personagem manifesta empatia por outro (que envolve o reconhecimento e a caracterização da emoção). Exploram a consequência da empatia e como é que ela provocou a mudança do comportamento de um personagem, durante o jogo, relativamente ao outro (tratando-o de forma mais gentil, preocupada e amorosa, por exemplo), o que envolve a compreensão das causas e consequências das emoções bem como as estratégias para exprimir e gerir as emoções.

Exemplo de vídeos que retratam a empatia no campo do desporto lazer e da competição de alto nível:


Resumindo, a metodologia RULER© reforça o currículo existente e fornece lições concebidas para aumentar os resultados relacionados tanto com as competências académicas (ex: vocabulário, compreensão da leitura, escrita, criatividade e no caso da EF, do vocabulário e expressão motora), como sociais e emocionais (ex: relacionamentos mais saudáveis, melhor tomada de decisões e comportamento pro-social). Normalmente este programa dura o ano escolar e explora uma unidade relativa a uma palavra/sentimento em cada 2 semanas.


RESULTADOS

mood meter study RULER 2

INFOGRAFICO emocoes melhoram a performance2E se a Inteligência Emocional se tornasse parte integrante dos currículos escolares

As emoções são importantes:

  • Na performance académica.
  • Na resolução de conflitos.
  • Para a saúde e sucesso.
  • Para todos nós.

BIBLIOGRAFIA


ruler artigo científico

  • Marc A. Brackett, et al. 2010. RULER: PDF
  • Zorana Ivcevic & Marc Brackett. 2014. Predicting success: Comparing Conscientiousness, Grit, and Emotion Regulation Ability: PDF
  • Carolin Hagelskamp et al. 2013. Improving Classroom Quality with the RULER approach to Social and Emotional learning: PDF
  • Lori Nathanson et al. 2016. Creating Emotionally Intelligent Schools with RULER: PDF
  • Ruth Castillo et al. 2013. Echancing Teacher Effectiveness in Spain: A Pilot Study of the RULER Approach to Social and Emotional Learning: PDF
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