Educação Física – Pedagogia da Paz

linha-vermelha1LUTAR/COMPETIR vs COOPERARlinha-vermelha1ARTES MARCIAIS

Wikipedia: Artes marciais são disciplinas físicas e mentais codificadas em diferentes graus, que tem como objetivo um alto desenvolvimento de seus praticantes para que possam defender-se ou submeter o adversário mediante diversas técnicas. São sistemas para treino de combate, geralmente sem o uso de armas de fogo ou de outros dispositivos modernos. Atualmente, as artes marciais, para além de praticadas enquanto treino militar, policial e de defesa pessoal, são também praticadas como desporto de combate. Existem diversos estilos, sistemas e escolas de artes marciais. O que diferencia as artes marciais da mera violência física (briga de rua) é a organização das suas técnicas num sistema coerente de combate orientado para o desenvolvimento físico, mental e espiritual.judo-pequenoPalavras Chave:

  • O que é: disciplina física e mental de treino para combate, geralmente sem o recurso a armas de fogo ou outros dispositivos modernos.
  • Objetivo: para que os praticantes se possam defender ou submeter o adversário.
  • Contexto: militar, policial, defesa pessoal e nos desportos de combate
  • Diferença relativa à mera violência (briga de rua): organização das suas técnicas num sistema coerente de combate orientado para o desenvolvimento físico, mental e espiritual.

zareiUma demonstração tradicional de cortesia é o cumprimento realizado no início e no final da aula de frente para o Shomeni (forma de agradecimento àqueles que desenvolveram a arte). O cumprimento pode ser feito de duas maneiras distintas:

  • RITSUREI – cumprimento em pé; 
  • ZAREI – cumprimento sentado (SEIZA).

Dojo ou Dojô (em japonês: 道場, Dōjō, lit. “Local do caminho”) é o local onde se treinam artes marciais japonesas. Muito mais do que uma simples área, o dojô deve ser respeitado como se fosse a casa dos praticantes. Por isso, é comum ver o praticante fazendo uma reverência antes de entrar, tal como se faz nos lares japoneses.

O termo foi emprestado do budismo-Zen e significa o “lugar de iluminação”, onde os monges praticavam a meditação, a concentração, a respiração e os exercícios físicos. Decompondo-se nos kanjis, ver-se-á que quer dizer caminho, estrada ou trilha (sentido espiritual), e, lugar, espaço físico, sítio.

Fui praticante de judo durante muitos anos tendo iniciado aos 10 anos de idade. Nunca me senti confortável com a competição e evitava ao máximo esta situação devido à extrema ansiedade que bloqueava a minha capacidade de confronto físico, embora fosse um bom atleta do ponto de vista físico e técnico. Mais tarde, procurei explicações na psicologia para o meu suposto problema, pressupondo que competir era uma condição normal do ser humano e não conseguir competir, uma disfunção. Agora sei que é o contrário, competir é uma condição disfuncional do ser humano e cooperar caracteriza a nossa verdadeira natureza e essência.


OBJETIVOS E CONTEÚDOS DA EDUCAÇÃO FÍSICA


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É evidente que os objetivos e conteúdos da Educação Física estão totalmente vinculados ao modelo desportivo. Sabemos também que o desporto é, na sua essência e génese, uma prática competitiva. O programa privilegia as matérias nucleares que, na sua maioria se enquadram na categoria de desportos de invasão (territorialidade, antagonismo, disputa, confronto), desportos de rede (atirar projeteis para o campo adversário: bola, volante)

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Wikipedia – Desporto: A palavra “desporto” vem do francês antigo desport, que significa “recreação, passatempo, lazer“. Surgiu na língua portuguesa no século XV, com o sentido de “divertimento”. No entanto, apenas a partir do século XIX a influência do termo inglês sport, que também tem origem em desport, terá contribuído para o incremento do seu uso com o significado moderno em Portugal. (…) O desportivismo é uma atitude que valoriza o fair play, o respeito pelos adversários e colegas de equipa, pelo comportamento ético e integridade, pelo jogo limpo, e pela ética na vitória ou na derrota.

Uma das principais justificações da inclusão do desporto nos currículos escolares assenta na convicção de que a prática desportiva contribui para o desenvolvimento integral do jovem e como tal para a sua formação moral (valores). Vários autores têm-se debruçado sobre os possíveis valores positivos e negativos inerentes à prática desportiva. John O’Sullivan (2014), “Changing the Game”, página 14 refere que “o desporto juvenil serve outro propósito para lá do desenvolvimento da condição física (atleticismo), um objetivo muito mais importante que servirá os jovens ao longo das suas vidas. Os desportos (na sua opinião) são o meio perfeito para desenvolver o caráter e os valores fundamentais (nucleares), segundo princípios sociais e éticos universalmente aceites. Estou a falar de coisas como compromisso, integridade, humildade, justeza, excelência e auto-controlo. Os desportos são um meio para ensinar aos jovens que a falha é uma parte da aprendizagem e que ultrapassar desafios é uma parte da vida. O desporto juvenil são microcosmos de desafios, obstáculos e situações que as crianças têm de enfrentar através das suas vidas.

Porém, a minha pergunta é: Será a Educação Física uma Pedagogia Marcial?

Em caso afirmativo:

  • Porquê?
  • Desporto como uma MATRIZ CIVILIZACIONAL e CULTURAL ao SERVIÇO DA PAZ? Será possível conciliar o ideal olímpico, que coloca o desporto ao serviço do desenvolvimento harmonioso da pessoa humana com vista a promover uma sociedade pacífica preocupada com a preservação da dignidade humana, quando recorre à arte da guerra, não só de forma simbólica como literal?

DESPORTO:


Se utilizarmos a anterior definição de arte-marcial para nos ajudar a definir o desporto vamos obter o seguinte texto:

Desportos são disciplinas físicas e mentais codificadas em diferentes graus, que tem como objetivo o (alto) desenvolvimento dos seus praticantes para que possam defender ou atacar (submeter) o adversário mediante diversas técnicas e táticas. (…) Atualmente, os desportos, podem ser praticados em diferentes contextos e existem diversos tipos de desportos coletivos e individuais. O que diferencia o desporto da mera violência física (confronto de rua) é a organização e codificação da sua prática segundo regras e códigos de conduta (fair-play), orientado para o desenvolvimento físico e mental.

Palavras Chave:

  • O que é: disciplina/modalidade de treino físico, técnico e tático de confronto (jogo de invasão)..
  • Objetivo: para que os praticantes possam atacar (fase ofensiva) com o intuito de marcar golo infligindo derrota (submeter o adversário), e defender o seu espaço de jogo e a sua baliza.
  • Contexto:  espaços e instalações desportivas artificiais e/ou naturais.
  • Diferença relativa à mera violência (briga de rua): organização das suas técnicas e táticas num sistema coerente de confronto (combate, disputa), orientado para o desenvolvimento físico e mental.

DESPORTO, MODELO DE INTERAÇÃO HUMANA:


O jogo desportivo, afirma Pierre Parlebas, representa uma sociedade em miniatura, um verdadeiro laboratório das condutas e das comunicações humanas. Aí se conjugam os problemas de perceção e de decisão, de dinâmica de grupo e de estratégia, de ritualidade e de autoridade. O jogo desportivo está situado no cruzamento do poder de iniciativa individual e de sistemas de coações coletivas. O desporto moderno, nascido num momento em que a sociedade conhecia uma das maiores crises da sua história, vive desde a sua infância as contradições e o mal-estar da sociedade que o produziu. A organização do universo desportivo, feita à imagem duma sociedade que esqueceu, em grande parte, os valores fundamentais que podem dar sentido e esperança à existência humana, não pode deixar de provocar mal-estar e frustração.

No III Congresso de História e Desporto, “Desporto e Guerra” que decorreu em 2014 a FCSH-UNL entre 29 e 30 de maio, podemos ler num título de apresentação oral de César Rodrigues (GHD/CEIS20 da Universidade de Coimbra): “O desporto enquanto guerra simbólica – A “bola em forma de bala” e uma bandeira nos pés”. 

O desporto tem dado visibilidade a determinadas visões de Homem e de mundo, em que a supremacia alcançada no «campo desportivo era – e por vezes ainda é – um sinónimo de superioridade de uma civilização ou, ideia infame, de uma raça» (Superioridade de um clube e seus adeptos). Se a atividade do futebol estiver enquadrada num quadro competitivo de sucesso de jogos internacionais com equipas e/ou seleções representantes de nações, a sua utilização pública por parte dos regimes associados a esse êxito tornar-se-á uma oportunidade recorrentemente aproveitada. Assim, os Estados-Nação desencadearam, nalguns casos, políticas tendentes à instrumentalização do futebol, valorizando o seu capital de representação nacional, permitindo reproduzir quotidianamente um “nacionalismo banal”. Desta forma, as seleções acabaram por se tornar um privilegiado instrumento de unidade nacional, uma vez que, na linha do defendido por Hobsbawm, uma equipa composta por um conjunto de onze jogadores permite representar e de alguma forma materializar uma comunidade de milhões de pessoas. Com o aparecimento das competições desportivas internacionais, a própria linguagem de cariz militar associada, muitas vezes, ao futebol servia como analogia para as guerras patrióticas de defesa da nação, fazendo do desporto uma outra forma de fazer a guerra. O futebol cumpria o papel de mediar o «nosso instinto natural de guerra» ou de «instrumento simulador de guerra entre dois grupos rivais» que combatem no campo de jogo pela vitória e dominação do oponente. A retórica do desporto enquanto guerra simbólica ganharia maior protagonismo após a Primeira Grande Guerra. Para tal, terá contribuído também o elevado potencial nacionalista do desporto num período em que os nacionalismos eram empolados um pouco por toda a Europa. 

Este raciocínio é extensível e aplicável a todas as outras modalidades desportivas que o programa de educação física assume como nucleares ou principais.

  1. Visões do Homem e do Mundo!
  2. Desporto enquanto Guerra Simbólica!
  3. Desporto como Instrumento Simulador de Guerra!
  4. Linguagem de cariz militar no desporto!
  5. Desporto olímpico, decadência moral!
Dois exemplos de desafio desportivo que emulam a guerra (luta):

O Haka são danças típicas do povo Maori. Geralmente demonstram a paixão, o vigor masculino e a identificação com a raça. É usada tanto para dar boas vindas a visitantes quanto a tribos inimigas. Atualmente o Haka é conhecido mundialmente pela performance de intimidação no início dos jogos de Rugby da seleção da Nova Zelândia (All Blacks), que costuma antes do jogo, executar uma haka específica chamada Ka Mate.

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Nesta imagem vê-se claramente que o jogo de andebol evolui num constante duelo físico, uma luta ou confronto de forças, por vezes violento.

Crença disfuncional: “A vida é uma luta!…”; “A vida é dura!…; “A vida é um combate, uma guerra, uma competição!”; “A vida é a procura de poder!…”futebol-a-arte-da-guerra1

Após a primeira guerra mundial, o Alan Pershing organizou os primeiros jogos desportivos entre as forças aliadas. Em 1919, mil e quinhentos atletas militares competiram em vinte e quatro diferentes desportos, em Joinville, nos subúrbios de Paris. Com a realização destes jogos procurava-se que os militares lutassem em campos desportivos em vez de campos de batalha e que esse convívio e amizade gerada, através da competição, fosse contribuir directamente para o fim das guerras.

RESPOSTA:

De facto, não só o desporto nasce da tentativa de treinar os guerreiros num simulacro da guerra, como por outro lado, procura civilizar e refinar a forma de guerrear (de combater), para que se torne menos sangrenta e socialmente aceite como um espetáculo ou atividade de lazer. É preferível lutar num campo desportivo do que num campo de batalha. Então podemos concluir que o desporto de competição é uma arte marcial porque emula e simboliza um conflito num campo de batalha. Mas como é que se promove a paz e cultiva bons valores recorrendo a atividades cujas metodologias herdam a sua essência na arte da guerra? Será que conseguimos incutir nos jovens, em idade escolar, os valores desportivos como o trabalho em equipa, a tolerância, a solidariedade e o fair-play recorrendo a artes marciais? Ou seja, porque motivo a Educação Física se identifica com a arte da guerra e pratica a pedagogia da guerra com uma cosmética de paz e entendimento?

A atitude competidora pressupõe a noção de territorialidade, de confronto, de superioridade, de desafio, duelo. Como tal, a competição predispõe os indivíduos a estados de ansiedade, stresse associados a emoções incoerentes tais como o medo.

Esta cultura da guerra está tão disseminada em todos os níveis da nossa sociedade que nem sequer a questionamos.

  • Nos videojogos onde os jovens controlam os atiradores na primeira pessoa.
  • No cinema que exacerba os filmes de ação e violência.
  • No desporto onde os jogos de invasão territorial se evidenciam evocando atos de incursão e subjugação dos inimigos.
  • Na economia que é também ela uma combinação de guerra e desporto, como afirma Andre Maurois, onde se desenrolam conflitos domésticos e internacionais pelo controlo dos recursos territoriais e energéticos.
  • O combate político, a guerra da desinformação e contra-informação e a competição pelo poder.

Diz-se que a melhor maneira de esconder algo é mantê-la à vista e dar-lhe outro nome!


DESPORTO E DESINFORMAÇÃO:


A comunicação é uma forma de entendimento, habilidade ou capacidade de estabelecer um diálogo, através da transmissão ou receção de ideias ou de mensagens, procurando-se partilhar informações. A informação é a qualidade da mensagem que um emissor envia para um ou mais recetores. A informação está sempre relacionada com uma realidade (tamanho de um parâmetro, ocorrência de um evento etc.).

No desporto, um jogador tem que saber dominar a informação, mas também a desinformação. Ou seja, tem que saber comunicar corretamente com os seus colegas de equipa, mas também induzir os adversários em erro através de desinformação. Relativamente aos seus colegas, a informação tem que ser precisa e verdadeira para que a bola chegue em condições a um colega que se desmarca para uma posição vantajosa, próxima do alvo. Mas tem que ser falsa, carregada de ruído para criar equivoco no adversário e assim tirar vantagem disso. O ruído assume a forma de simulações corporais, fintas com mudanças bruscas de direção, cortinas/ecrans, esquemas táticos, etc. que provoquem no adversário respostas desajustadas e que o coloquem fora do caminho do alvo. Ou seja, a desinformação corresponde à utilização das técnicas de comunicação e informação (corporal), para induzir em erro ou dar uma falsa imagem da realidade (intenção dissimulada), mediante a supressão ou ocultação de informações, minimização da sua importância ou modificação do seu sentido. Ou seja, um bom Professor ou treinador é aquele que, para além de ensinar os alunos/atletas a utilizar uma linguagem corporal correta (técnica), também os ensina a mentir, que é o nome dado às afirmações corporais dissimuladas e enganosas (falsas), mas propositadas. Porém, mentir é contra os padrões morais de muitas pessoas e é tido como um “pecado” em muitas religiões. Mas é algo tido como normal e até altamente valorizado num atleta ou aluno que domina as técnicas de desinformação (drible = mentira, dissimulação da intenção). Ou seja, é como se houvesse dois tipos de mentira, um aprovado e que se relaciona com a maestria do domínio corporal, técnico e tático, sem violar as regras do jogo (contacto físico válido que não obstruí – ex: carga de ombro), e a outra forma de mentir, na qual o jogador procura tirar partido de uma situação de disputa direta ou confronto da bola através de uma carga faltosa, rasteirando ou obstruindo o outro, impedindo-o de chegar à bola. Assim, também existem formas legítimas e ilegítimas de obstruir o adversário dependendo se o defesa tem a sua posição definida antes do contacto com o atacante. Ou seja, mentir é favorável ao sucesso desde que se faça dentro das regras. Porém, mentir é mentir e numa sociedade que valorize a transparência, a verdade e a confiança mútua, a desinformação é, e será sempre, uma forma moralmente duvidosa de se ter sucesso porque se obstruí a verdade.


LINGUAGEM DE CARIZ MILITAR:


Vocabulário marcial nos programas de educação física inerente à prática desportiva:

  • Transição da defesa (defender: proteger-se contra um agressor) para o ataque (ataque: executar uma ação ofensiva contra alguém ou alguma coisa).
  • Ações de ataque: agressão; execução de uma ação ofensiva; ação de ofender, de causar dano moral
  • Ação ofensiva: Investida; ações ou procedimentos que visam o ataque contra algo ou alguém: o exército preparou uma grande ofensiva.
  • Penetração: invadir (entrar violentamente em; apoderar-se de; conquistar – submeter pelas armas, pela força, assujeitando, dominando, submetendo, subjugando – existe uma atitude de desrespeito pelo outro porque se força a sua vontade), caminhar para dentro de, passar através de.
  • Aumentar a pressão: é sinónimo de coação, violência, aperto, compressão.
  • Marcar o adversário: que entra em combate com uma outra pessoa; antagonista: lutador adversário; que é capaz de se opor; que é contrário a; opositor.
  • Fintar: enganar, ludibriar (utilizar palavras ardilosas – desinformação pela linguagem corporal – com o intuito de enganar alguém/adversário – mentir, dissimular, iludir)
  • Remata: acaba, completa, conclui, finaliza, finda, perfaz, perfaze, termina, ultima
  • Ações Técnico-Táticas: arte de combinar a ação de tropas, ou os recursos característicos das diferentes armas, a fim de obter o máximo de eficácia no combate: tática de infantaria; tática naval; tática aérea. Conjunto de meios ou recursos empregados para alcançar um resultado favorável.
  • Estratégia: Forma ardilosa (Que é sagaz, astucioso, manhoso, enganador, velhaco, espertalhão: inimigo ardiloso.) que se utiliza quando se quer obter alguma coisa. Habilidade, astúcia, esperteza: contornou a dificuldade com estratégia. Coordenação militar, política, económica e moral feita com o intuito de defender uma nação de seus possíveis invasores. Arte militar de planificações de guerra.
  • Bloqueio: impedir; criar impedimentos para a realização ou para o desenvolvimento de; colocar um obstáculo para impedir a movimentação de; obstruir a passagem de outro jogador.
  • Barreira: obstáculo, estorvo, empecilho.
  • Desarme: verbo desarmar.  Tirar as armas a. Privar dos meios de ataque ou defesa.
  • Carga: é a ação exercida por dois jogadores que procuram o contacto físico através de zonas do corpo permitidas pelas leis do jogo, na luta direta (combate de dois atletas, corpo a corpo, e sem armas; ação de duas forças que agem em sentido contrário), pela posse de bola.

CONCLUSÃO


Entendo, com base nesta análise superficial que existem muitos argumentos para se afirmar que os objetivos e conteúdos da Educação Física ao estarem totalmente vinculados ao modelo desportivo, importam toda a sua carga marcial simbólica. Ou seja, existe de facto uma Pedagogia Marcial na prática pedagógica de Educação Física a qual está implícita não só no seu vocabulário (nos valores que transmite), mas também no modelo de organização dos desportos em si que enfatizam a disputa, o confronto. Se me perguntarem se concordo com John O’Sullivan (2014), “Changing the Game”, na sua defesa do desporto como modelo de formação dos jovens no contexto escolar e mesmo social, depende da forma como interpretamos o desporto no seu papel e função, embora aprecie e respeite bastante a sua causa, mensagem e motivação.

changing the game project

Tudo depende do tipo de sociedade que queremos construir, do tipo de “visões do Homem e do Mundo!”. Se queremos perpetuar o atual modelo competitivo individualista (domínio do instinto e das sensações) e social (domínio da razão da sensação e da emoção numa perspetiva da dualidade mente-corpo), que apelam sobretudo ao nosso estadio espiritual primitivo, então o modelo desportivo competitivo de formação, serve perfeitamente. Porém, se queremos uma sociedade de paz e harmonia teremos que investir nos Estágios Espirituais do domínio universal (domínio da consciência e da intuição).

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O desporto é uma situação mutuamente exclusiva porque para que um dos membros alcance os seus objetivos, os outros serão incapazes de atingir os seus. Existe uma atitude competitiva, quando o que A faz, é no seu próprio benefício, mas em detrimento de B, e quando B faz em benefício próprio mas em detrimento de A.

Nunca um conflito de interesses que se resolve pela força, poder, imposição ou superioridade, poderá ser uma linguagem para a paz.

A paz depende de situações mutuamente inclusivas, ou seja, para que um indivíduo possa alcançar os seus objetivos, todos os restantes  elementos deverão igualmente alcançar os seus respetivos objetivos. Uma atitude é cooperativa quando “o que A faz é, simultaneamente, benéfico para ele e para B, e o que B faz é, simultaneamente, benéfico para ambos. Cooperação é um processo onde os objetivos são comuns e as ações são benéficas para todos.

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Entendo e enquadro as palavras de Manuel Sérgio nesta última etapa (Estágios Espirituais), quando afirma que “o paradigma emergente, ou holístico, colocou novas questões à educação Física, gerou a crise, no seio mesmo da ciência normal. E estar em crise, é anunciar o novo e, simultaneamente, denunciar o conservadorismo, o dogmatismo da ciência normal”. “Ora a ciência da motricidade humana (cinantropologia?), partindo do princípio que o homem é um ser itinerante e práxico, a caminho da transcendência…”.

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Para já, deixo-vos com esta reflexão para que possam perceber que a Educação Física recorre de facto à Pedagogia Marcial ao estar vinculada ao modelo desportivo. A sua visão do homem e do mundo assenta numa prática que se exprime através de um instrumento simulador de uma guerra simbólica, explícita numa linguagem de cariz militar, que valoriza a desinformação como estratégia para conquistar sucesso sobre o adversário, subjugando-o.

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LEGENDA: Jogos de Invasão Territorial: futebol, basquetebol, andebol, rugby, corfebol, floorbal, fresbee, etc | Jogos de Rede/parede (artilharia): ténis, badminton, squash, voleibol (Arremessar projeteis para o território inimigo). | Jogos de Alvo (balística): golfe, bowling, bilhar, tiro com arco Jogos de Batimento (balística): basebol, softball, criquet.

O fitness fica naquela zona de fronteira uma vez que é uma atividade de confronto com os outros nalgumas expressões (concursos de fitness e culturismo), mas sobretudo é uma luta consigo próprio. Prevalece a noção de combate dos fatores de risco e a forma como nos relacionamos com o nosso corpo parece refletir o profundo conflito da vida contemporânea. Por um lado o fitness representa uma tentativa desesperada para se recuperar a harmonia do corpo e da mente, mas ao mesmo tempo parece que cada vez somos menos capazes de viver com e através do corpo. O resultado é que deixamos de nos sentir confortáveis a viver nos nossos corpos (Mihaly Csikszentmihalyi (1975). Nos países tecnológicos (Relação marginal com o desporto), um número crescente de pessoas encontram-se “encerradas” numa luta confusa contra os seus corpos (combate):

  • Querem dormir mas não conseguem.
  • Querem ficar magras mas engordam.
  • Querem sentir-se alegres mas não conseguem sair das suas profundas depressões.
  • Querem ficar saudáveis mas combatem os fatores de risco como se o corpo as traísse.

Proponho uma organização do jogo e atividades física segundo o modelo das competências suaves em vez do atual, por motivos óbvios:

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ESCOLA FELIZ POSITIVA 4

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Joel de Rosnay (1975), num excelente livro intitulado “O macroscópio”, quando aborda a necessária emergência de novos valores, na atual sociedade, tanto na esfera do trabalho (economia) como da educação em geral, refere que a “competição profissional foi considerada até hoje como uma motivação saudável rumo ao êxito. O novo pensamento rejeita toda a competição herdade na tradicional luta pela vida. joel-de-rosnay-circuloRepudia toda a ideia de comparação simplista baseada na excelência e no mérito, uma vez que tais comparações conduzem geralmente a uma classificação arbitrária entre os indivíduos, a juízos de valor que limitam e empobrecem as relações humanas” (…) “de maneira um pouco ingénua, por vezes, a sociedade liberta da ideia de competição, não surge já como uma selva mas como uma comunidade de interesses cuja evolução assenta na ajuda mútua, na cooperação, na educação recíproca, na parceria”. Os jogos cooperativos (Team Building), desempenham um papel fundamental na construção de laços de confiança entre os indivíduos.

Uma Educação Física do Século XXI terá que evoluir para uma outra visão de homem, de sociedade e de mundo porque uma sociedade desportivizada é uma sociedade competidora, conflituosa, separada, desunida e fragmentada por rivalidades, disputas e conflitos. Vejam onde nos trouxe este modelo! Eu preconizo uma educação Física para a Paz e por isso desvalorizo a linguagem do desporto. As artes marciais como o Judo, assumem explicitamente a sua relação com a luta e com o guerreiro. Os desportos coletivos e individuais têm uma origem marcial mas apresentam esta luta, esta oposição como um eufemismo linguístico. Em vez de luta chama-se desporto e desportivismo, uma atitude pelo fair play. A Educação física tem que investir nas práticas corporais que levam à vivência holística (holopráxicas) para promover uma desfragmentação do ser humano através de uma cultura da paz.

holopraxisRODA PAZ

Porém, deparamo-nos ainda com outro problema, esta transição terá que ser gradual para evitar conflitos e paradoxos entre sistemas de crenças tão bem retratados no cartoon seguinte. Porém é urgente começar esta mudança de paradigma (Ver projeto Jogos Cooperativos)

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